quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O PRINCÍPIO E O FIM

Conta-se, que no alto de uma montanha havia uma pequena árvore, que sonhava com o que seria depois de grande. Olhando as estrelas ela disse: Eu quero ser o baú mais precioso do mundo, cheio de tesouros, para isso estou disposta até a ser cortada.

Depois de muitos anos, veio um lenhador e cortou aquela árvore. Ela estava ansiosa para ser transformada naquilo com que sonhara, mas lenhadores não costumam ouvir e nem entender sonhos, que pena! Sendo assim, a árvore acabou sendo transformada num cocho de animais, coberto de feno.  Ela se perguntou desiludida e triste: Por que isso, justo comigo?
Aconteceu que numa certa noite, cheia de luz e de estrelas, onde haviam mil melodias no ar, uma jovem mulher colocou seu filho recém-nascido naquele cocho de animais, e de repente, a árvore percebeu que continha o maior tesouro do mundo: " O Menino Deus".

Conta outra lenda, que uma criança ficava sentada num banquinho enquanto sua mãe bordava; Ela crescia, e o bordado também. O tempo passava, e todas as tardes os dois ali, no mesmo lugar. Um dia, a criança observa o bordado do ângulo que pode ver - do avesso,  e imagina  que horrível coisa será aquela, cheia de nós, repleto de traços de todas as cores, complexo, sem nexo.


Depois de muito tempo,  aquela mãe chama seu filho e lhe mostra o bordado pronto. A criança fica paralisada diante daquela bela imagem, cheia de cores e de  arte. Na vida real, temos histórias de vida com finais surpreendentes. Conheci um Sr. que foi abençoado com muitas riquezas. Dia após dia ele recebia da natureza grandes preciosidades. Em um dos seus aniversários, ganhou de um garimpeiro, uma valiosa pedra preciosa, incrível, mas ninguém jamais ouviu dele, um só agradecimento por tanta bem-aventurança. Coberto pela poeira das estrelas, ele escreveu o seu final, imaginando-se no trono do seu  império. Hoje, após perder todos os bens, perdeu também o maior deles: a sua saúde. 


Fica então uma sábia conclusão: a árvore teve sonhos, mas sua realização foi mil vezes melhor do que havia imaginado. Como a criança do bordado, nós vemos por partes os caminhos percorridos, e as vezes pelo avesso. Somos incapazes de ver o trajeto todo.
Pequenos ou grandes, corriqueiros ou não, os prodígios divinos se encontram bem ai,  ao alcance de todos. Debaixo do calor sufocante desse inédito verão, de repente entra pela janela um sopro de vento, tão profundo e imenso, que sempre imagino seja o sopro do criador.  
Que jamais percamos os caminhos, tendo em mãos uma grande arma: a sabedoria.
Importante, é viver todos os dias como se fosse o último, pois não se pode recuperar  um só segundo do que se passou. 



Por Marlene Campos Vieira
www.marleneletrada.blogspot.com.br

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O GATO

 Ao contrário do meu amigo Alípio Mário Ribeiro, nunca gostei de gatos. Achava um bicho sutil, egoísta  e  oportunista. Quando me mudei para o Pará tive que ter um gato em casa, só assim consegui afugentar os roedores que me pareciam cada vez maiores e os pequenos ratinhos que chamamos aqui de “catitas”. Mas a relação era o bicho gato lá e eu cá, dentro de casa. Não admitia nem que ele tivesse nome. Era o gato. A alimentação  era assim: “Qual a ração mais barata que vc tem aí para gato?” 

Ai dele se fizesse cocô ou xixi dentro de casa. Ou se eu encontrasse vestígios de um rato. Substituição imediata. Não vou detalhar os métodos da substituição, ou descarte. Um dia, um amigo psiquiatra veio morar na minha cidade e trouxe o gato que o acompanha há dez anos, etc , etc. Eu, sinceramente, não acreditei que ele veio de Minas para o Pará com todos aqueles excessos com um gato. Me decepcionei profumfamente com o meu amigo e fiz logo pre julgamentos cruéis. Quando eu o visitava,  ficava aquele bicho gordo e castrado  ronronando para dentro e passando por debaixo das pernas da gente. Enquanto eu tinha obrigatoriamente um gato somente para espantar ratos, ele morria de amores pelo gato dele. 

Pretinha pra cá, Pretinha pra lá.Comprava a ração mais cara. Pense numa ração cara! Mas eu tô falando é cara! Como ele morava em apartamento, pasmem, queridos leitores, ele tinha um recipiente específico para o gato despejar a caríssima caca e o riquíssimo xixi e um saquinho de areia que era para o bichano fingir que enterrava. Eu não acreditava naquilo.Até que, ele recebeu uma proposta de trabalho em Minas e teve que se ausentar por uns meses e adivinhem quem ele escolheu para cuidar da mimada “ Pretinha”? Mil recomendações e um caderno realçava as mais importantes. Eu não poderia negar um pedido vindo de um amigo de vinte anos. Enfrentei a parada.

 Como morava só e recebia a visita de meus filhos só no fim de semana, fiz um propósito de levar a sério a missão. Meus filhos viam aquele gato enorme com pavor e distância, mas, depois de passar o medo e o estranhamento, passaram a gostar da Pretinha. E eu comprei o CD do Seu Jorge que não coincidentemente tinha uma música que falava:

 “Pretinha, eu faço tudo pelo nosso amor, faço tudo pelo bem do nosso bem, meu bem. A saudade é minha dor, e anda arrasando com o meu coração.E não duvide que um dia eu te darei o céu. O meu amor junto com um anel, pra gente se casar No cartório ou na igreja. Se você quiser Se não quiser tudo bem, meu bem, mas tente compreender.” E eu cantarolava todo dia e os meninos todos os dias que estavam comigo gostavam cada vez mais da Pretinha. 

E não é que um dia eu me vi assitindo filme com a Pretinha no colo, toda despojada? Meu Deus, eu estava gostando de gatos! Eu, gostando de gatos!? Sim eu estava gostando de gatos! Descobri que eles não são nada egoístas, são carentes, são leais, carinhosos e tem um jeito especial de demonstrar carinho. Descobri que eles gostam de ver a gente olhando para eles quqando comem, que adoram companhia de gente conhecida e meus filhos pela primeira vez se afeiçoaram a um animal e eu a um gato. Confesso que pelos pensamentos idiotas e preconceituosos de antes ( diga-se de passagem) que não ouso citar, fiquei com vergonha, mas confesso tambem que faltei ajoelhar nos pes do meu amigo para ele deixar a Pretinha. 

Mas nada covenceu aquele desalmado, Levou a Pretinha. Uma gata que devia pesar quase vinte quilos a cara do Garfield. Ela gistava realmente de mim, dos meninos e do Weverton. Nada a ver com a casa. Eram as pessoas mesmo. Fiquei muito triste quando a Pretinha foi embora e meus filhos mais ainda. A casa ficou vazia. O lugar que ela fazia o pipi deixei no mesmo lugar, so para lebrar dela. Tinha uma namorada que gostava muito da Pretinha e também sentiu a saóda dela. Sim. Comfesso que ofereci dinheiro ao Weverton mas ele não aceitaria nenhuma montanha de dinheiro por ela. Nem eu aceitaria. Primeira providência, procurei a dedo um gato. Não poderia ser qualquer um, mas o gato que tivesse empatia comigo e com os meninos.

 Encontrei. Mudei três vezes de casa e ele todas as vezes junto comigo, toda noite arranhando a porta do meu quarto para poder entrar. A ração já era assim, Você tem a Whiskas de frango ou salmão? É porque meu gato não gosta da de carne. Olha só? Mas quando eu chego do trabalho e hoje moro com meu filho, é aquela festa com o Rubião ou Xanim, qualquer um dos nomes ele atende.Meu filho de 12 e minha filha de 10 adoram ele, mas não conseguem esquecer a Pretinha. Acho que Pretinha foi o click que faltava para eles se ligarem que os animais tem um coração enorme e que aquele coração depende apenas de uma retribuição para ser cativado.

 É uma lembrança para a vida toda. Agora ganhei um cachorro filhotinho que ficará enorme e minha luta é ensinar os dois, gato e cachorro a conviverem como amigos. Abaixo os bobos que acham que isso é “viadagem” ( mas que termo chulo e homofóbico eu usava!) ou frescura. Amar os animais e zelar por eles é uma coisa tão humana que somente quem sabe olhá-los olhos nos olhos consegue perceber que, no fundo, no fundo, não há grande diferença deles para nós.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

PODER

Derramei mais algumas  lágrimas ao sentir que tantas coisas vividas eram acreditadas por fazer parte de uma ingenuidade. Na realidade, hoje me parece que o mundo, em todas as suas esferas e em todos os patamares, com raras exceções não lutam por dinheiro. Dinheiro virou coisa de valor menor perante a maioria dos homens. A guerra que se trava é pelo poder. Ja disse um desses ex-presidentes parecidíssimos: " O Poder é uma delícia". Algo saboroso, pensem bem. Ter o destino de milhões de pessoas nas mãos e fazer o que quiser? É o que pensa o descascador de laranjas que alçou de cargo para vendedor e tem como seu subalterno outro descascador.A humilhação se assemelha. Infelizmente é parte da índole trevosa do ser humano. Pensamentos curtos. Será que preciso disso?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

HOMEM – LINCOLN CAMPOS VIEIRA

 

Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
1 Coríntios 13:11

Decisão de crescimento espiritual é da ordem do livre arbítrio. Mesmo que o livre arbítrio não esteja totalmente a disposição do nosso raciocínio, ou melhor o nosso raciocínio não esteja na envergadura de entende-lo. Nem por isso ele deixa de existir assim como Deus.
Crescer é da lei natural, tudo cresce, evolui desde o material até o espiritual. Ainda que muitas coisas ainda não possam ser captadas pelos instrumentos materiais da ciência.
Crescer – crer ser – querer ser. Acreditar em si e agir na direção da realização das suas aspirações. Decidir se por alguma coisa requer que o individuo esteja TOTALMENTE disponível no presente para o que se propõe. Totalmente, significa em pensamento e ação.
Paulo diz “quando menino”, significando um estágio da vida humana. Mas no caso se trata de uma condição espiritual. Não há uma separação tão clara entre os termos espiritual e mental.
Hoje o que vemos são pessoas estendendo esse estágio de infância para além do similar biológico. Pais que se comportam como seus filhos. Filhos que exigem cada vez mais os direitos dos adultos. Pais imaturos e filhos “adultificados”.
Filhos que “pedem”, através do seu comportamento, limites aos seus pais. Pais que querem compensar agruras na própria criação e encastelados na culpa se tornam permissivos e fracos. Logo esses pais deixam de ser referencia para seus filhos, pois são tão ou mais dependentes que esses. Consultórios de especialistas, escolas, conselhos tutelares, Juízes de direito e policiais passam a ser solicitados até pelos pais que assumam a condição de referencia, lei e cuidado.
Quando deixaremos de ser meninos e seremos Homens? Quando reconhecermos o nosso Pai e nos mirarmos em seu exemplo, quando tivermos por referencia um Pai maior: o verdadeiro Homem. Mas para isso é preciso querer, deixar a indolência, medo e culpa e passar à ação. Decidir é não olhar pra trás com curiosidade ou insegurança.
Nenhum especialista, líder religioso, acadêmico ou autoridade por maior que seja seu conhecimento e poder é suficientemente entendido de mim para moldar o meu livre arbítrio.
Para pensar, sentir e discorrer como homem é necessário transitar por caminhos de dor sem se entregar a revolta ao medo e ao rancor.
Esse é o nosso destino, o mais é protelação.

POR LINCOLN CAMPOS VIEIRA

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Cassius

E como ele se esquiva dos socos,

Baila e zomba da pequena mosca que está atordoada

esperando o momento de escutar o estampido das duas mãos

abafando o seu sopro de vida.

O admirador adversário não sabe o que olhar,

O ‘balé’ que ele faz unindo pernas, cintura, cabeça e

olhos menospreza/desafia/provoca/dores,

Será que ele está sorrindo? Não vejo ironia nem sarcasmo.

Ou deixa todo esse conjunto e se concentra nos braços

Que balançam, que chamam, que convidam, que convocam?

Respeitosamente, Ali, na sua frente.

São frações de segundos, são milésimos.

São Pedro, pedra. Paixão; chão! Pronto.

“E vejo daquele ângulo apenas pernas, milhares

Ouço gritos, porquê gritam tanto?

Não é pela minha derrota, sei que não.

Braços, milhões deles, me levantam.”

Esse é o momento mais duro.

Encarar a todos sem precisar nem explicar que perdeu

Mas terá que explicar, terá que falar, terá que dizer

Em que momento errou mais, por quê perdeu…

São Cristóvão não vai atravessá-lo no rio.

Alí, quem estará para atravessá-lo é Cassius.

A ele cabe a explicação da sua derrota;

A ti cabe esperar ansiosamente que o faça!

Você sonhou dezenas de dias com o contrário

Sabendo daquela realidade presente.

Você queria explicar a derrota do gigante.

Mas ele o faz!

Ao levantar o seu derrotado braço

E fazer da sua derrota uma grande vitória

Assim (não) é a vida.

29/12/2014 01:28

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Sonho Real

OLINTO E LAILA  IMG_4257

 

“Felicidade pode estar pelo sim
Às vezes do seu lado
Tem alguém a fim

Chega e instala a beleza
Momento de sonho real

Vem andar comigo
Numa beira de estrada
Desse lado ensolarado
Que eu achei pra caminhar
Vem meu anjo solto

Abusar do meu conforto
Ser meu bem em cada porto
Que eu ancorar

Felicidade pode estar pelo sim
Às vezes do seu lado
Tem alguém a fim

Chega e instala a beleza
Momento de sonho real”

(Lô Borges)

Livre Pensar

Ateus, muçulmanos, agnósticos, Wiccas,

Cristãos católicos, cristãos evangélicos, cristãos espíritas.

Crentes anônimos, velhinhas que tem fé, rezam o terço.

Presidiários que recebem uma palavra de alento.

Cuidado! O intelecto indomável DE ISOPOR vem aí.

 

E vem com força total!

E poucos sabem  “quanto tempo temos

antes de voltarem aquelas ondas

Que vieram como gotas em silêncio tão furioso;

Derrubando homens entre outros animais,

 

Devastando a sede desses matagais;

Devorando árvores, pensamentos seguindo

A linha do que foi escrito pelo mesmo lábio tão furioso.

E se teu amigo vento não te procurar

É porque multidões ele foi arrastar”

 

Vem para arrasar, com retumbante força ilógica e tendenciosa

o que é o antagônico do livre pensar.

Traz em si uma dose cavalar de  sábia ignorância,

com citações googleanas, inibindo e confundindo

o pensamento em formação.

 

Devorando pedaços de orelhas de livros,

Demonstrando pseudo sabedoria em um deserto.

Disposta a criar dossiês no campo da contrafé.

Deus é palavra de escárnio, ironia e piadas prontas.

Mundo rei é o que vale. Ser feliz é o que importa.

 

Procurar uma busca para ter provas contra ela,

Provar para o seu mundo que a inteligência que não a sua, é falsa.

Criar tribunais imaginários para mostrar o próprio vazio

E vida sem sentido, exceto quando o assunto é seu.

Apontando o vazio alheio! quanta tolice e tempo perdido.

Quem é o que quer, que seja.O importante é o coração generoso

Como tantos que ja conheci e vivi.

 

E tempo é o que não temos a perder, quem quer que seja.

Tudo é uma questão de manter, a mente quieta,

a espinha ereta e o coração tranquilo, Válter, o Franco.

 

“mas Como beber dessa bebida amarga?

Tragar a dor engolir a labuta?

Mesmo calada a boca resta o peito

Silêncio na cidade não se escuta”

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O que falaria a Pilatos, face a face?

aSSISTI DE NOVO A “PAIXÃO DE CRISTO”, anteontem, com line cássia.

me estarreceu ver pilatos espalhados pelo mundo.

me veio o que escrever, medianamente.

espero que retrate o que senti.

 

                                    I

Sorriso de rio que recebe chuva, como o São Francisco

Como uma parreira, carregada de cachos de uva

Como uma grande árvore na floresta.

Sorria como relatam que sorria o menor dos discípulos.

 

Tranquilo e Justo, mesmo sendo irmão de João

Que era um companheiro constante de Jesus.

Permaneceu com sua serenidade fazendo o bem.

Sorria, como uma terra ressequida

que levanta fumaça ao receber as primeiras gotas.

E levanta um aroma inigualável.

 

Sorria como uma criança que vê o pai chegando

Cansado da luta diária e que se recompõe com um abraço

Como um amigo que não se via há tempos. Sorria.

 

Sorria o sorriso tímido, escancarado, exposto de forma espontânea

Como o sorriso de Robin Williams, ou o sorriso inocente de Chaplin

De Jesus diz-se que pouco sorria, mas tinha semblante sereno.

Como relatou o Senador quando estudou de perto sua fisionomia.

Os grandes homens de paz tinham olhares firmes.

 

E se repararmos bem, podemos ver alguma serenidade.

Serenidade que nos arremete até um pouco de tristeza

Como o sorriso de Lincoln ou de alegria, como o de Mandela.

Já repararam os olhos de Mandela, até eles sorriam.

 

                                                II

 

não sorria entredentes, não sorria com vil ironia.

Os olhos denunciam, a fala entrecortada entrega a personalidade falsa,

Sorrateira, ardilosa, sutil, como a serpente que se esgueira entre a multidão

Se a píton falasse seria uma leve gagueira.

Uma fala cambaleante, risonha e sem firmeza, pensando ter qualidade

 

Mas sabendo no fundo não tê-la. As últimas sílabas emudecidas e venenosas.

A força de ambição e inveja, não deixa, não é  rapaz?

Nasceu em um berço de inveja, não vê?

Inveja de não ter pés, de não ter nome, de não ser nada.

Medo da probabilidade de nunca ser nada, que triste!

 

E se esforçar tanto para ter o que outros naturalmente tem.

Não é riqueza, não são viagens, não são bens.

É a velha história da pedra fosca que nunca terá brilho.

Arquitetar a armadilha e seduzir os obtusos a sua volta

ou bajular os que julgam poderosos, como césar.

 

É a arma do homem sem paz, que traz em si uma marca

Que poucos veem. Poucos percebem. Poucos sabem da existência.

Pode até ter sido ensinado o bem. Mas o que pensam que é o bem.

Mas se o mal o seduziu, balançou sua rede e embalou seus sonhos.

De que valeu o bem ensinado?

 

                                        III

 

A ti, Pilatos, nunca terá um natural destaque

Já está reservado seu próprio pesadelo,

deixou admiradores que fielmente seguem toda e qualquer lei,

deixou iguais, deixou herança maldita.

 

Ao podar, pelas costas, o pouco, a ti invejado, do seu irmão.

De ti, aproximam os  que não perceberam seus olhos.

Aproximam-se mais os atoleimados, fisgados com facilidade.

Mas aproxima-se os bons de coração,

Que você repele ou suporta, dependendo do que pode ganhar.

 

Eu te digo, Pilatos, não se deixe levar pelo corte profundo do descaso

Porque tal corte não cicatriza, vira uma ferida aberta

Que nunca sara, que atrai moscas e se abre cada vez mais

Não sorria o sorriso macabro e gago dos que estão por detrás do muro

Esperando que algo de ruim aconteça a quem inveja.

Não, não escarneça, se há algum mal, esqueça.

 

Ele fere o coração com a mais fina agulha anestesiante

Que a dor constante não mais se sente, mas é sempre presente.

Não seja justiceiro arguto de causas que nem você acredita.

Comparo-te às gotas de uma pia estragada.

 

Acostuma-se com os pingos de caem de dois em dois segundos

E ao final do dia, de pingo em pingo, há litros de água contaminada.

Envenenada com o seu fino fel irônico, sarcástico.

Conheça-se por dentro e cresça, não almeje tesouros aqui.

Não finja que o seu foco é uma moral que não tem.

Não traga pra si um sofrimento que poderia não ter .

 

Deixe quem quer que seja trilhar o caminho escolhido;

não crie dossiês, relatórios, justificativas.

Há um imenso contra você...

 

E se não puder dar a mão, que não seja uma mão ensaboada, Pilatos.

Mas sendo uma ponte quebrada, acolha a quem o procure.

Vendo uma ponte quebrada, alerte para que não caiam.

 

                                         IV

 

Não faça como tanto já fez.

Você não é daqueles que levantará o caído.

Pois imagina-se em um pedestal inexistente.

Não olha a semente que um dia será um grande carvalho.

 

Não se esqueça que de carvalho foi feita a cruz

Que um dia homens como você

Penduraram e pregaram o Homem, Eis o Homem!

 

A Responsabilidade não é do carvalho e sim dos ignorantes.

Em quem se espelha, você é você mesmo, Pôncio?

Que sempre gagueja diante do medo?

Não se iluda rapaz, você não é um homem.

 

Ainda ontem o vi urinar de medo.

Veste-se como um homem, mas a mim não confunde.

É como aquele pústula que não teve a coragem necessária

de trazer uma regra de paz,

Preferindo seguir a lei mordaz de uma falsa moral.

não colecione inimigos!

 

A estupidez do orgulho te impediu de ver a nobreza.

Esteve diante dela e não viu

Lavou as mãos, covarde e pobre.

Preso a uma burocracia desinteligente

Que nada produz, nada constrói, tudo corrói.

 

                                        V

 

Sorria rapaz, sorria, mas sorria de verdade

Ensine o seu filho o que é ser homem

Ensine coisas simples, perfumes suaves das flores gratuitas

Beleza da relva que nada cobra para ser acariciada.

Riqueza da natureza, Pinho, Cedro, Pau Brasil.

 

Nosso País nasceu da simplicidade e não do orgulho.

Ah, mas isto lhe é impossível! Só se ensina o que se é!

O homem que você não é, e quer ser, nunca existirá.

Não mancomune a queda de ninguém,

Torne-se um homem! Barrabás foi maior que você.

 

Seja homem, mas não seja um homem mesquinho

Isto você já é, mesquinho, não homem.

Não se esforce para ser ainda mais. Não há espaço em ti.

 

Antes, auxilie a erguer. Beba um gole de água.

E vamos, dê um jeito de crescer e virar homem

Porquê precisamos de gente que saiba fazer paz.

Feitores de guerra já temos demais.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O OLEIRO E O POETA

Há muito tempo, na cidade de Zahlé, ocorreu uma rixa entre um jovem poeta, de nome Fauzi, e um oleiro, chamado Nagib.

Para evitar que o tumulto se agravasse, eles foram levados à presença do juiz do lugarejo.

O juiz, homem íntegro e bondoso, interrogou primeiramente o oleiro, que parecia muito exaltado.

“Disseram-me que você foi agredido? Isso é verdade?”

“Sim, senhor juiz.” – confirmou o oleiro – “fui agredido em minha própria CASA por este poeta. Eu estava, COMO de COSTUME, trabalhando em minha oficina, quando ouvi um ruído e a seguir um baque.

Quando fui à janela pude constatar que o poeta Fauzi havia atirado com violência uma pedra, que partiu um dos vasos que estava a secar perto da porta.

Exijo uma indenização!” – gritava o oleiro.

O juiz voltou-se para o poeta e perguntou-lhe serenamente: “Como justifica o seu estranho proceder?”

“Senhor juiz, o caso é simples.” – disse o poeta.

“Há três dias eu passava pela frente da casa do oleiro Nagib, quando percebi que ele declamava um dos meus poemas. Notei com tristeza que os versos estavam errados. Meus poemas eram mutilados pelo oleiro.

Aproximei-me dele e ensinei-lhe a declamá-los da forma certa, o que ele fez sem GRANDE dificuldade.

No dia seguinte, passei pelo mesmo lugar e ouvi novamente o oleiro a repetir os mesmos versos de forma errada.

Cheio de paciência tornei a ensinar-lhe a maneira correta e pedi-lhe que não tornasse a deturpá-los.

Hoje, finalmente, eu regressava do trabalho quando, ao passar diante da casa do oleiro, percebi que ele declamava minha poesia estropiando as rimas e mutilando vergonhosamente os versos.

Não me contive.

Apanhei uma pedra e PARTI com ela um de seus vasos.

Como vê, meu comportamento nada mais é do que uma represália pela conduta do oleiro.”

Ao ouvir as alegações do poeta, o juiz dirigiu-se ao oleiro e declarou: “que esse caso, Nagib, sirva de lição para o futuro. Procure respeitar as obras alheias a fim de que os outros artistas respeitem as suas.

Se você equivocadamente julgava-se no direito de quebrar o verso do poeta, achou-se também o poeta egoisticamente no direito de quebrar o seu vaso.”

E a sentença foi a seguinte: “determino que o oleiro Nagib fabrique um novo vaso de linhas perfeitas e CORES harmoniosas, no qual o poeta Fauzi escreverá um de seus lindos versos. Esse vaso será vendido em leilão e a importância obtida pela venda deverá ser dividida em partes iguais entre ambos.”

A notícia sobre a forma inesperada como o sábio juiz resolveu a disputa espalhou-se rapidamente.

Foram vendidos muitos vasos feitos por Nagib adornados com os versos do poeta. Em pouco tempo Nagib e Fauzi prosperaram muito. Tornaram-se AMIGOS e cada qual passou a respeitar e a admirar o trabalho do outro.

O oleiro mostrava-se arrebatado ao ouvir os versos do poeta, enquanto o poeta encantava-se com os vasos admiráveis do oleiro.

***

Cada ser tem uma função específica a desenvolver perante a sociedade. Por isso, há grande diversidade de aptidões e de talentos.

Respeitar o trabalho e a capacidade de cada um possibilita-nos APRENDER sobre o que não conhecemos e aprimorar nossas próprias atividades.

Respeito e colaboração são ferramentas valiosas para o desenvolvimento individual e coletivo.

Malba Tahan

domingo, 30 de novembro de 2014

LIBERDADE, LIBERDADE, ABRE AS ASAS SOBRE NÓS!

Dia 15 de Novembro comemorou-se a Proclamação da República no Brasil. Trata-se de um marco histórico, época em que comemoramos, teoricamente, a quebra do Regime Imperialista, dominado pelos portugueses, que queriam de nós apenas as riquezas colossais que poderíamos “oferecer” ( e fornecemos) à Coroa Portuguesa. O Hino à República, belíssimo, tem em seu refrão: “Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós!” Foi escrito há mais de cem anos e o motivo de tal clamor era de que nos livrássemos “ das garras de Portugal” ( o hino fala textualmente). 

Hoje, mais de cem anos depois, estamos lutando para nos livrar das garras de nós mesmos, brasileiros, atordoados pela falta de escrúpulos, vivendo a vida e tendo a sensação de que um dia a mais nos faz sobreviventes. O Brasil liberto de hoje é aquele mesmo País que produz mães que jogam filhos recém-nascidos nos esgotos, que trata mal os seus velhos e que tem milhões de crianças nas ruas, desaprendendo a ser gente. 

Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós e nos mostre, cem anos depois, como nos livrar da mentalidade minúscula que turva a visão dos pequenos políticos, que não conseguem enrolar a bandeira e vivem duelando contra seus próprios preconceitos. Já naquela época, o primeiro Presidente da República, o Marechal Deodoro, era um Monarquista que se rendeu aos anseios e necessidades da Nação e teve que da República.  Os homens podem renunciar quando interesses maiores e legítimos estão acima dos seus próprios interesses pessoais. 


Mas o que mais se vê é Odoricos Paraguassu se alastrando no Brasil liberto. Somos ainda um País que sobrevive da chantagem, dos bastidores, Zeca Diabo sobrevive no País liberto de norte a sul e especialmente nas esferas mais altas do poder.Lembro ainda do Collor com uma pasta cor de rosa chantageando Lula no debate presidencial em 89. A cada cutucada do Lula, Collor apenas batia a mão na pasta rosa, que ele confessou não ter nada, anos depois. A maioria dos apoios e desafetos não tem como a verdadeira origem a malversação do dinheiro público, que existe mesmo, no Brasil varonil de cima a baixo; são os interesses contrariados a “grande” causa. 

Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós, ainda hoje, em 2014, continuamos cantando a atual estrofe do nosso centenário Hino, porque um País que tem tantos analfabetos não pode ser chamado de livre e não adianta querer colocar a culpa em um ou outro porque isso já é uma situação crônica, que não se resolverá em poucos anos. Alguns de nossos maiores calos tem a raiz no início da nossa história, que até hoje é mal contada. 

Ninguém sabe quem foi o vilão. Sei que heróis são os brasileiros que vivem abaixo do limite da miséria e são constantes no trabalho honesto. Somos especialistas em arranjarmos culpados para as nossas mazelas e esquecemos que quando apontamos o dedo para alguém, tem três apontados para nós mesmos que escolhemos os culpados. E não tem essa de que “fulano não me representa”. Representa sim. 

Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós e nos mostre como é ser uma verdadeira República de homens e mulheres livres, honestos, sinceros e irmãos. Isso é utopia? Vejam então como conclui uma das estrofes do nosso belo Hino à República: 

 Mensageiro de paz, paz queremos, É de amor nossa força e poder!